sábado, 13 de março de 2010

A estrela brilha

A lagarta vira borboleta e se liberta da crisálida do corpo.

Deixo aqui um registro em homenagem a minha avó, falecida há poucos dias. Exemplo de luta, que muitos valores nos deixou, dentre os quais o de jamais desistir frente as adversidades da vida, bem como a resignação diante do sofrimento.

Relendo o poema Mas, compartilho com os amigos que passam também por contratempos, na certeza de que tudo passa na vida.

Mas...

E eu que achei que a lua não brilhasse
sobre os mortos no campo da guerrilha,
sobre a relva que encobre a armadilha
ou sobre o esconderijo da quadrilha,
mas brilha.

E achei que nenhum pássaro cantassese
um lavrador não mais colhe o que planta,
se uma família vai dormir sem janta
com um soluço preso na garganta,
mas canta.

Também pensei que a chuva não regasse
a folha cujo leite queima e cega,
a carnívora flor que o cego inseto pega
ou o espinho oculto na macega,
mas rega.

Pensei também que o orvalho não beijasse
a venenosa cobra que rasteja
no silêncio da noite sertaneja
sobre a ruína de esquecida igreja,
mas beija.

Imaginei que a água não lavasse
o chicote que em sangue se deprava
quando, de forma monstruosa e brava,
abre trilhas de dor na pele escrava,
mas lava.

Apostei que nenhuma borboleta
-por ser um vivo exemplo de esperança-
dançaria contente, leve e mansa
sobre o túmulo em flor de uma criança,
mas dança.

Por isso achei que eu não mais fizesse
poema algum após tanto embaraço,
tanta decepção, tanto cansaço
e tanta espera, em vão, por teu abraço,
mas faço.

Antonio Roberto Fernandes

8 comentários:

  1. Solidarizo-me com o prezado amigo em função da perda recente. Reeba minhas condolências!

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  2. Grande amigo. Abrace toda a sua família. Como você mesmo disse a perda de um ente querido que muito nos deixou em exemplos significa apenas a continuidade necessária da vida onde quem admiramos sobe e passa a pairar no firmamento brilhando ainda mais. Morrer não é bom, sei, mas pode ser, dentre as máximas inoxeráveis da vida que não nos acostumamos nunca, uma passagem tranquila. Miguel Delgado.

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  3. Oi Ricardo, receba também as minhas condolências.
    Bjos,
    Dani

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  4. Ricardo
    lamento muito sua perda, bonita homenagem.
    O poema não é do mesmo autor que os "pratos", os tais que em boa hora me fizeste chegar e que tanto me influenciaram pela positiva?
    Abraço

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  5. Sinto muito pela perda, amigo Hoffmann. Passei por isso recentemente também. Fica o carinho, ficam eternamente os bons momentos vividos juntos, os exemplos, os ensinamentos, certamente muitos, entre os quais os que você citou.

    Um abraço.

    Fábio

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  6. Hoffmann,
    perder alguém tão próximo assim é difícil mesmo. Espero que vc tenha tido a oportunidade de estar por perto para agradecer pelos bons momentos.
    Meus sentimentos a vc e à família. Que a borboleta continue inspirando, mesmo sem estar voando ao seu lado.
    Forte abraço,
    Shigueo

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  7. Marildo Nascimento15 de março de 2010 15:43

    Meus sentimentos a vc e a sua familia.
    Força amigo! As lembranças ficaram para sempre em seu coração com certeza!

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  8. Amigo Ricardo
    Só agora fui confrontado com esta triste notícia e, embora tardio, não quero deixar de lhe enviar um abraço solidário.
    E quanto ao poema...bem, é simplesmente genial. Grande poeta é este António Roberto Fernandes, que o Ricardo nos deu a conhecer com os "Pratos de Vovó". Um grande "observador" da vida.
    Forte Abraço.
    FA

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