quarta-feira, 20 de julho de 2011

III - Maratona do Rio de Janeiro 2011

Começo esse relato com a primeira de uma série de constatações: Maratona sem Picanha é igual churrasco de alcatra...é bom mais não tem graça. Paulo Picanha esteve presente nas minhas duas maratonas anteriores, e em ambas fizemos uma bela disputa. Em PoA(2010), ele perdeu. No RJ(2010), ele venceu por pouco, pela caridade que fiz com Wu, optanto por não humilhá-lo já no nosso primeiro encontro na bela distância. Picanha, fico feliz ao vê-lo de volta às corridas, na certeza que em breve teremos grandes disputas. Enquanto isso não ocorre, vou atrás do seu record no ranking do Júlio, pois não posso dar mole de deixar você na minha frente ali. 3:52:27 vai ser osso, mas eu vou te buscar.

A segunda, maratona são muitas disputas em uma. A principal, mente x corpo. E dessa disputa eu sigo com a sensacional definição de Miguel Delgado: "Maratonas se corre com a cabeça, treinamos o corpo para ele não atrapalhar muito". Além dessa disputa, a diversão de percorrer os 42km estão nas disputas com os amigos. E nesse quesito, a maratona do Rio 2011 foi muito proveitosa. Senão vejamos:

Dei o troco no camarada Namiuti, que na versão 2010 me esculachou. Ele também esteve presente em todas minhas participações em maratonas, e desempatei o placar para 2x1. Seguimos juntos por quase todo trecho monótono do recreio a barra, e ali ele largou o pelotão. Curioso que eu já não o via no horizonte,  e já tinha aceitado a derrota, mas assim como o futebol, a maratona é uma caixinha de surpresas. Por um capricho 'natural', ultrapasseio-o sem me dar conta, e só soube da vitória lendo seu relato. Valeu por tudo camarada, e que venha nova revanche. Não amarele para Búzios.

Miguel Delgado também amargou uma derrota, e empatamos o placar no RJ. Ele está numa momentânea fase não competitiva, mas não está aguentando tanta gozação dos companheiros. Rumores existem que ele volta com tudo em breve, prometendo acabar com a euforia de Wu.

Graças ao Marcos (bonitão), foi possível vencer Meire. Só assim, com caridade e despreendimento da querida amiga de BH, para vencê-la. Meire, você arrebentou ajudando o Marcos em sua estréia, mas terá que amargar para a eternidade a única derrota para mim na sua carreira. Já me sinto realizado.

Também cometi a façanha (primeira e única) de vencer Ênio Japa, essa ficará para a história e para os anais do pedestrianismo. E o xará, grande amigo e companheiro de aventuras, amargou a primeira derrota. Com esse a disputa promete grandes emoções no futuro.

Mas o mundo não é só alegrias e festas...perdi novamente para Guilherme Maio, que mesmo não gostando, fez uma grande prova. Só um capricho do universo para vencê-lo novamente. E Wu, merece um parágrafo a parte, mas vamos à prova.

Como no ano passado, os prolegômenos ficam a cargo do excelente relato do Namiuti (ou Ney, como preferir). Já deixo aqui registrado que para termos sucesso  nessa maratona, teremos que abrir mão do "showdízio" da véspera, e consequentemente, do rondeli de prestígio.

Na largada sai na companhia do xará, mas quando, assim que passamos no pórtico, ele  reduziu para bater na mão do Marílson, eu já sabia que ele iria perder. Era muita energia para sua carcaça. Por isso, sabiamente, optei por não saudar o grande campeão. Fizemos a volta de apresentação (à Ivo Cantor) e avistei um mini pelotão Baleias, formado por Miguel, Marinês e Ênio. Cheguei fazendo festa no pelote, mas, como diz a Verônica, o pace do pelotão estava muito "jogo de damas" (quando a coisa está monótona, como o jogo de tabuleiro), cheguei com pace mais forte e optei por mantê-lo e perder a festa da companhia do gordo no infinito retão do recreio à barra. Nesse ponto o xará já sentiu o baque da palminha no Marílson e ficou para trás.

Bati papo com dois corredores de SP, um estreiante na distância, e se deslumbrando com o percurso e o calor ainda na reserva. Não quis desanimá-lo logo no início, mas disse que o que vinha pela frente seria muito melhor, tanto em beleza quanto em calor. Ficou para trás. E o segundo paulista, já me perguntava onde seria bom pegar ônibus para chegar ao Flamengo, pois vinha da maratona de SP, e não conseguiria completar. Disse que o melhor seria no Leblon (sacanagem, só para ele ter que subir a Niemeyer). E que seria em torno do km 29. Soltou um palavrão. Nesse ponto o Namiuti encosta, dizendo que eu estava com ritmo muito inconstante. Seguimos juntos até quase à barra. Ali ele abriu cerca de 100m na subida do primeiro elevado e não mais o vi até a chegada. Mais uma derrota, pensei.

No primeiro túnel, a alegria de ver Meire e Marcos, correndo juntos...ah o amor! Na saída do túnel, a alegria de passar por Hideaki caminhando (ainda ganharei dele um dia, com sua técnica matadora após o km 33), e seguir com ele até a entrada de São Conrado, passando antes pelo espetáculo do túnel da light. Se no ano passado foi emocionante o jogo de luz, neste ano eles passaram dos limites. Só quem passou ali é capaz de saber. O que eles nos reservam para o próximo ano? Ali encontrei o grande treinador Branca, esperando seus alunos. Chamei-o, ganhei um abraço, tirou uma foto, perguntou se precisava de algo, e me desejou uma excelente chegada. Pessoas como ele fazem a diferença! Vi-o ajudando tanta gente no percurso, anônimos, que não são seus alunos, mas isso não importa para ele. Mandei por ele lembranças à Mayumi. Consiga a foto para mim tá Mayumi?

Niemeyer a frente, e estava preparado para ela, que foi o começo da derrota no ano passado. Reduzi o passo e subi sem caminhar, passando muitos caminhantes, dentre os ilustres, Eduardo Bustamante, que por ter esquecido o chip no carro, não terá a honra de ter perdido de mim, pois os auditores não conseguirão evidenciar sua derrota.

Chegada ao Leblon e depois Ipanema, e esse trecho eu gosto. O povo estava animado (coisa rara no RJ) e a campanha da olympikus levou o povo pra rua, com dizeres muito legais. Foi uma grande sacada. Preciso ver Copacabana como a princesinha do mar. Ali foi sempre difícil, e dessa vez não foi diferente. A começar pelo isotônico, que me embrulhou o estômago e por pouco não me faz vomitar. Tive que dar a primeira caminhada por isso, e foi o precedente para novas caminhadas nesse trecho que não entendo sua mística de me fazer andar. Tentei de tudo para me distrair e passar logo por ele, mas nada adiantava, e para piorar, o number two dava claro sinais que estava na área, algo comparado a cabeça da tartaruga a sair do casco, manja?

Com uma trégua momentânea do two, saquei o mp3 e me embalei na lembrança dos amigos. 'I will survive' foi a primeira da lista aleatória, e era a mensagem que eu precisava, eu iria sobreviver, apesar de tudo! Marli, valeu mais uma vez. Ainda em Copa, segue 'School', e eu queria o pace do Regis junto com a música, mas como seu início é bem "jogo de damas", aproveitei para caminhar, e na hora que ela animou, fui firme, até encontrar o Pinguim quebradinho e caminhando também. Gritei, ele bateu foto, e ao ver o manto coral, disse que Wu estava caminhando logo ali na frente. Foi uma injeção em ambos, ele para fotografar o momento da ultrapasagem, e eu para repetir a dose de 2010. Isso já era quase na virada para a Princesa Izabel e fim da orla. Ali entrou 'Changes', e eu sabia que o Guilherme já deveria ter chegado. Amarguei a derrota. Na saída do túnel, 'burning heart'. Silvio acertou em cheio, não apenas o coração. mas tudo estava fervendo. Em seguida, no curvão de botafogo, entra 'dancing with myself', não dancei, mas caminhei um bocado com a Jacke na lembrança e sorri para todos, como ela. No ponto onde encontrei Wu caminhando no ano passado entra 'Wherever I May Roam', xinguei Felipe e todas as gerações! Nada de Wu aparecer! Eu não tinha condições para o pace dessa música...mas Felipe, você não tem culpa, eu gosto é disso mesmo! Já dava para ver o pórtico, e dessa vez já sabia que a Júlia não estaria ali para a tradicional foto da chegada. Passo na placa do 42k, vibro como nunca, para abrir o sorriso e percorrer os 195m mais emocionantes da história. É muito bom tudo isso, e cruzo a meta com a música do Gilmar, 'just the way you are'.

A última constatação, deixo para o final, pois é quebra de paradigma na preparação para maratona. Meus maiores treinos longos foram apenas 2 de 20km! Isso é Ironguides. Terminei bem, com 4:h40', bem abaixo do ano passado. 2012 promete ser A maratona do RJ para mim, preciso vencer Copacabana, e a preparação mental para tal já começou.

Na chegada, revi amigos, ouvi lindas histórias e fui embora feliz para casa, para abraçar a família.

Até a próxima.

RJ, 17 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Für Elis

Plágio descarado de Beethoven. Mas a mais nova carioca merece sentir o gostinho de um monte bom como esse, que a espera ansioso por ser conquistado. Esse é "Para Elis" ter água na boca.


O último longo para a maratona seria um treino de 90 minutos. Como precisava me despedir momentâneamente do meu habitat montanhês, para encarar no próximo domingo os 42km de asfalto da bela orla carioca, decidi ver até onde conseguiria subir em 45 minutos.

Para minha surpresa e felicidade, cheguei muito perto da porteira aos 45', ou o final do trecho IV. Quem não entende isso, veja aqui. Acabei indo até a porteira em 48'. Fiz uma experiência de um substituto para  gel, para o caso de enjoar daquele assaí com guaraná... mariola e paçoca, aprovado. Melhor ainda que não precisa de água para diluir. Levarei para eventuais emergências.

Nos últimos 4km do treino, já ao nível do mar, saquei o ipod com a lista que os amigos sugeriram e foi emocionante lembrar de vocês nessa reta final. Muito obrigado a todos que deixaram ali sua história. Coloquei no aleatório e eis o que caiu:

- Happy Togheter. Valeu Namiuti!! Apertei o passo, pensando em lhe deixar uma poeira na Niemayer. Te aguardo camarada, vou te oferecer rondeli de prestígio.

- Wherever I May Roam. Essa não tem como não voar, é muita porrada na cabeça. Felipe, você é dos meus! Lembrei de você no Cindacta! Aquilo é história e poesia. Muito obrigado por sua amizade e generosidade.

- Poker Face. Dica da super Mari. Sua garra e sua história me dão forças. Valeu!

- Just the way you are. Gilmar meu amigo, digo que me emocionei. Lembrei do seu sorriso (when you smile),  da sua simpatia e chorei por sua dor. Força ai meu amigo, tudo passa e não demora estaremos maratonando pelo mundo.

- I will survive. Marli!! Peço desculpa por colocar uma versão menos escandalosa dessa canção. Eu gosto da banda Cake, e coloquei a versão deles. Foi para fechar com chave de ouro esse treinão. Espero conhecê-la em Londrina.

Agora é esperar...controlar ansiedade e ter muita história para contar na semana que vem. Que venham os 42km do Rio. Até lá.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Distúrbio na Força

Definitivamente, ainda não tenho anticorpos Baleias. Como diria o mestre Yoda, "um distúrbio na força eu sentir".

Após saborear uma mortadela esbranquiçada, quase com anemia, seguida de costelinha de porco, o mundo veio abaixo. Uma semana de vida de planta, só no vaso. Para quem quiser se arriscar, uma excelente dieta de emagrecimento, foram 3 kg que ficaram para trás em uma semana. Estou fininho, podem acreditar. Miss simpatia, fica a dica.

Isso tudo na véspera de maratona, onde estava planejado o treino mais longo, que foi WO por motivo de força maior.

Ontem voltei a trotar após 9 dias parado, e consegui correr 20km, o que não foi nada mal.

RJ será diversão, vou ser café com leite, não disputo com ninguém. Mas quem perder pro cagão vai ter que me engolir. Não será dessa vez que entrarei no ranking do Júlio também.

Preciso fazer um estágio em BH. Tropeiro, polenta, torresmo, tutu, para ganhar anticorpos.

É isso, tenho dito. Amanhã é meu niver, e vou no sapatinho, sem exagero, prometo. Vida de Padawan que segue.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Dos games para tela

Depois do relato da aventura em Uribici. Os estúdios Fox, MGM e Universal não param de me ligar. Querem porque querem uma coletiva para conhecer o novo astro, que encarnará o papel de Shinobi nas telas do cinema.



Almodóvar também acaba de ligar. Descobriu o blog Baleias e se encantou com o coral e com o material ali disponível. Quer filmar também.

domingo, 19 de junho de 2011

Caroço de Manga

Disse Jesus, porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível (MT 17:20).

Diria que de grão de mostarda, minha fé já avançou para caroço de manga. O morro está passando. O ciclismo tem feito a diferença nas minhas pernas. O treino de hoje era de 140 minutos, pedindo 8 tiros de 30s aos 60 minutos de treino. Essa metodologia de dar os tiros no meio do treino longo, para forçar as pernas e tornar-la pesada, simulando as dificuldades vindouras, é muito interessante.


As pernas responderam bem, morro e tiros não a derrubaram. O corpo está treinado para não atrapalhar muito, e a mente está no domínio do corpo. Estou muito confiante.

Faltam ainda duas pedreiras para fechar a preparação. Aguardem notícias. Como diria o Miguel, és Baleia e tem o corpo fechado.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Acreditar e Agir

Se você tem algum sonho, os dois verbos acima devem fazer parte do caminho para a sua realização. Se tiver um tempinho, recomendo a leitura desse texto.

Trago o tema acima por tomar conhecimento dos bastidores da primeira edição da  Maratona de Londrina. Susi Saito é uma das cabeças por trás dessa maratona. Parabéns Susi, por acreditar nos seus sonhos!

Como não poderá correr os 42km da prova em sua cidade, ela teve uma idéia genial. Vejam aqui, e também no blog que ela escreve. Uma dessas 42 asinhas já é minha.

Aliás, seu relato de estréia em maratona é um texto emocionante. Espero que quem ainda não encarou a "bela distância" se inspire no texto dessa vencedora para fazê-lo. E quem já encarou, relembre como tudo isso é bom demais e faz um bem danado para a alma...prepare o lencinho.

Com a autorização da Susi, reproduzo aqui seu belo relato. Susi, nos vemos em Londrina. Até lá.
(Logo que fiz minha primeira maratona, estava tão entusiasmada com o milagre que representava isto em minha vida que me pus a escrever...Aqui, um pouco da história...)

Tornar-se maratonista, ao contrário do que muitos pensam, não envolve apenas a história da trajetória de um corredor que corria percursos menores e, de repente, decide-se a tentar um percurso maior. Muito mais do que um desafio de superação física, conta e revela a história de vida de cada um dos corredores que cruza a linha de chegada.

Uma das primeiras coisas, ou das mais comuns que um maratonista ouve quando acaba a maratona é “O que você ficou pensando durante tanto tempo que você passou correndo?”. Difícil dizer! Vai depender de cada um... Assim como cada um tem a sua própria história que culmina com a conclusão de uma maratona.

A minha história conta, também, a história de superação de bloqueios físicos que se formaram devido a um grave acidente de moto que tive aos 21 anos de idade, recém formada no curso de Educação Física. A partir daí, a minha vida deixou de ser agitada como é comum a uma professora de Educação Física e a alguém da minha idade. Passei longos anos numa vida sedentária, sem nenhum interesse pela atividade física. Pra ser exata, oito anos! Aos poucos fui resgatando coisas em mim que havia deixado de lado que me levaram ao montanhismo e para praticá-lo, era necessário que eu me condicionasse fisicamente. Isso eu fazia com a natação. Até o dia em que meu clube parou de aquecer a piscina...

O que era pra ser uma pedra no sapato acabou sendo a ponta do iceberg que eu não avistava em minha vida! Jamais imaginaria o que me aconteceria a partir dali. Sem piscina para eu me preparar para as minhas viagens, fui “obrigada” a apelar para outra atividade. Por medida de contenção de despesa e do meu próprio tempo disponível, a melhor opção foi começar a caminhar no lago da minha cidade. Correr nunca esteve nos meus planos! Pra falar bem a verdade, eu nem sabia se podia correr. Nunca tinha tido a curiosidade, nem a vontade de perguntar ao meu médico que cuidou de mim desde o meu acidente, se eu podia correr. Logicamente, sempre acreditei que nunca mais poderia. E já que eu nem gostava de correr, nem no meu tempo de atleta, perguntar ou não, não faria diferença nenhuma. Então, nunca perguntei...

Ocorreu então algo inusitado! Um homem de calça arreada, exibindo-se para quem passasse a sua frente! Alertei a minha amiga para ficar atenta com a presença do dito cujo! Ela foi ficando num apavoramento que logo após os primeiros passos saiu em disparada e me ordenou “Susi, vamos correr!”, ao que eu respondi: “Mas eu não sei correr!”. De nada adiantou... Ela já havia disparado na minha frente e só me restou a difícil tarefa de arrastar-me atrás dela! Foi quando eu me dei conta do que havia acabado de fazer: tinha corrido uns 500 metros! Fazia dezenove anos que eu nunca mais tinha corrido! Fiquei deslumbrada com o que havia acabado de acontecer! No dia seguinte, encontrando um amigo meu que me acompanhava algumas vezes na caminhada, contei a ele o acontecido. E para minha surpresa, ele me respondeu: “Bem, se você correu ontem, vai correr comigo hoje!”. Praticamente intimada a isto, não tive escapatória. As palavras dele agiram como um desafio...

Algo totalmente novo e fora do planejado. Jamais desejaria, pra mim, correr! Não fosse o incidente e um amigo doido, mais doido do que eu pra me cutucar e me por pra correr, jamais teria feito isso. E todas as vezes que nos encontrávamos eu corria com ele. Trechos que partiram dos 700 iniciais para ao longo de quatro meses culminarem com uma volta inteira no lago. Que significava 2.200 metros!!!

Uma das minhas vitórias mais marcantes! Equivalente a qualquer grande prova que eu queira e deseje fazer! Pois eu parti do zero e percorrer a volta toda do lago, significou o desbloqueio emocional que gerou todo o bloqueio físico já existente e nunca curado! Eu não mais caminhava! Eu corria! Dali pra frente, a paixão pela corrida foi ganhando um espaço em minha vida na mesma proporção de ser algo tão improvável e tão impossível de acontecer. Nas férias na praia em Bombinhas, foi um deslumbre! Todos os percursos que eu fazia caminhando, nos outros verões, eu passei a fazer correndo! E sem nem sentir, estava fazendo percursos de uma hora.

Em Jaraguá do Sul, tive a minha primeira experiência de “Forest Gump”! Comecei a correr e não parei! Corri pelo Parque da Malwee por 1h45’, sem parar! Era o meu maior tempo até então! Costumo dizer que na corrida, a gente vai ficando atrevidinha! Quando se faz algo meio doido, além da nossa imaginação, perdemos o juízo! E partimos numa ida, invariavelmente, sem volta, para novos desafios...
Dias depois, convidada por um amigo, fui fazer um percurso de 22 km... Incluindo uma subida hiper íngreme e interminável... Acha? Quem eu estava pensando que eu era? Uma corredora, creio eu... E era! Eu só não tinha tomado consciência ainda do fato...

De volta a minha cidade, o lago tornou-se pequeno para as minhas investidas. Rodar os km que eu pretendia, procurar subidas como as que eu encarei nas férias, implicaria em buscar a rua. Caminho sem volta, mais uma vez! Tomei o gosto por queimar asfalto! Correr para mim era sinônimo de liberdade. De sair sem rumo. De correr no meu tempo, sem nada pré-definido. Era algo solo sem ser solitário. Gostava da minha liberdade.

Em agosto de 2008, participei da minha primeira prova. Vi um outdoor na rua que divulgava uma corrida noturna. Achei a idéia muito interessante e me inscrevi. Foi a primeira... Depois de três meses, estava participando da minha primeira meia maratona, em Maringá. Em 2009, vi a divulgação da Meia Maratona das Cataratas e me entusiasmei com a idéia de correr lá! Fomos em quatro. Organização perfeita! Prova, quase o tempo todo na chuva. Delícia! Adoro! Lavou a alma com meu tempo péssimo na Meia de Maringá. Fascinou-me de um jeito que já me programei para a próxima Meia: a do Rio! E então, eis que surge mais uma vez um inesperado! Um amigo virtual chamou-me para participar da Corrida da Graciosa. Logicamente, recusei o convite! Imagine, 20km de subida e eu, fraquíssima em subida... Insistentemente, ele se dispôs a me ajudar a treinar para ela. Passou-me um treino. Desconfiadíssima ainda, afirmei que só iria correr se próximo à data da prova, visse que eu estava dando conta do recado nos treinos. O que envolvia muitas subidas, muitas rampas, muita disciplina e muita dedicação. E fui. E para minha surpresa, fui bem melhor do que eu esperava. Isto me fortaleceu de tal forma... Concluir a Graciosa, sem quebrar, abriu-me uma porta, até então nunca percebida. A das impossibilidades na corrida! Pensar numa prova inconcebível e treinar para ela, crendo que seria possível fazê-la foi algo que mudou a minha vida! Tanto mudou que quando estava nas vésperas da Graciosa, este mesmo amigo que me treinou, começou a atiçar-me para outro feito: a Maratona de Curitiba... Eu sempre tive a firme posição de que a maratona é algo sem lógica, nada atraente para mim, inalcançável, fora de propósito. Não havia por quê eu querer fazer. Fazer pra quê? Não, definitivamente não! Um “não” que durou 2 horas e 20 minutos.

O tempo que eu demorei pra concluir a Graciosa. O êxtase de terminar uma prova tão dura e tão singular como ela é, nos endoida um pouco mais! Uma vez mais, deparar-me com algo impossível acontecendo na minha vida, fez-me mais atrevida, de novo! E resolvi aceitar o desafio do meu amigo. Treinar para a maratona de Curitiba!

Quando você tem um alvo definido, seja ele um sonho ou não, se ele for transformado em meta e a partir disto, você estabelecer as etapas que vão te capacitar para chegar a ele, juntar a isso, qualidades próprias aos corredores, leia-se: teimosia, determinação, disciplina, controle próprio, a busca por sonhos, a chance de se chegar ao almejado é muito, muito grande!

O que vejo agora, após quase dois meses de ter concluído esta minha primeira maratona, é que o ser humano tem possibilidades infindáveis a sua frente! E não aproveita seu potencial... Não é à toa que quem começa a caminhar e que vai, aos poucos, incluindo em seus passos uns trotezinhos, vai animando-se e vai, gradativamente, aumentando seus km em corrida, ao mesmo tempo em que vai diminuindo os km de caminhada. A corrida é empolgante! Ouso dizer que exatamente por este motivo que tantos corredores anônimos, assim como eu, estão atrevendo-se a participar de uma prova tão dura. A adrenalina produzida no dia da prova acelera-nos tanto que fazemos muito além do que geralmente podemos.

Decidir-se por fazer uma maratona é antes de tudo, uma opção por desafiar a impossibilidade e torná-la uma vaga lembrança de uma barreira transposta e que nos dá o degrau necessário para transpormos tantas barreiras que nos são impostas na vida! Muito mais do que imaginam os desavisados, concluir uma maratona não é nem de longe uma experiência restrita ao corpo físico. A alma toda é mexida! São horas em que, de fato, somos uma coisa só! O corpo carregando a alma, o espírito flui e nos pegamos orando e conversando com Deus numa tal intimidade absurda, onde ora estamos clamando por forças para terminar a prova, ora nos pegamos cantarolando, agradecendo pela experiência única de estar ali por horas e horas correndo, numa atividade impensável, percorrendo por ruas onde você pode ver todo tipo de pessoas correndo atrás de seus sonhos.

Vi muitas pessoas idosas (idosas? Diria, apenas com alguns km rodados a mais do que nós...), vi pessoas simples, correndo com tênis de nenhuma marca. Vi cadeirantes que corriam sozinhos e vi um que era levado por um corredor em passos largos e velozes. Vi gente dividindo garrafinhas de gatorate pela rua, pessoas oferecendo água ao desconhecido do lado. Pessoas puxando conversa e contando um pouco de seus sonhos a breves companheiros de prova que nunca viram e nunca mais verão! Vi pessoas maravilhosas pelo trajeto que embora não estivessem correndo, eram a platéia animada que lendo nossos nomes nos números, nos chamavam como velhos conhecidos e falavam palavras de incentivo! Crianças que nos aplaudiam e de algum modo nos davam a energia que precisávamos para seguir...

É absurdamente impossível conter em palavras toda emoção de correr uma maratona! Eu, que particularmente sempre fui contra participar de uma, pela impossibilidade que ela representava para mim, ver-me de repente, lá no dia da prova, alongando-me minutos antes da largada, ter meus filhos junto comigo, ver tantas pessoas reluzentes a espera da largada... e me ver ali... Falar da prova em si, é um capítulo a parte! Cada cena é digna de ser contada. Cada lição tirada de cada pequena experiência simboliza lições para a vida toda. Ter amigos que correram a prova de 10 km nos esperando passar lá pelo km 38, nos acenando e tocando em nossas mãos, falando palavras de incentivo, ver pouco a pouca as plaquinhas de km indicando a proximidade da chegada... e por fim, o que pedi a Deus: aquela chuvinha abençoada que me refrescou e me lavou a alma! Lá entre o km 41 e o 42, tive uma experiência inesquecível: por volta do km 39, liguei para minha filha e falei que estava perto do km 40. Ela ficou me aguardando e como via que eu não chegava, me ligou. Atendi o celular quando estava passando pelo km 41. Foi quando a chuva fina começou. Avisei onde estava e desliguei já totalmente tomada pela euforia de estar terminando. Bem próximo, então do km 42, algo que não consigo expressar em palavras. Talvez por imagem se tenha a idéia da cena. Minha filha, driblando a segurança da cerca próxima ao pórtico de chegada, invadiu a rua e veio ao meu encontro naquela chuva que agora, então, caía como Deus mandava! Intensa! Tão intensa como era a minha emoção naquele momento! Acho que ela tentou me abraçar, me dar a mão. Ali, tão próximo da chegada, a gente se encontra num misto indescritível de alegria, choro, emoção, confusão, que eu não consegui lhe dar a mão, acho que com medo de me atrapalhar e não conseguir dar os passos finais. E dali, ela seguiu ao meu lado, debaixo de chuva, os últimos metros dos 42,195 km da minha primeira maratona. Agora, achei a razão para os tais 195 metros finais. Neles pode acontecer a maior emoção de uma longa maratona. Você ser agraciada por Deus de além de estar terminando algo até há pouco tempo impensável, ter ao seu lado as pessoas mais preciosas: junto comigo na rua, minha filha. Do lado de lá, protegendo a câmera da chuva, meu filho. Minhas maiores preciosidades presentes num momento inesquecível em minha vida. Concluir a Maratona de Curitiba remeteu-me a cena onde eu correra pela primeira vez no lago na minha cidade... Tão improvável, quanto possível!

A maior mensagem que alguém que acabou de concluir sua primeira maratona tem a passar é de acreditar que, a todo momento, nos são impostos limites e que nem todos eles são intransponíveis. Quando o coração define um sonho, a mente determina-o como meta, a alma regozija-se em correr atrás dele. Numa mágica que só acontece aos que crêem e perseguem seus sonhos, surge uma força até então não conhecida, que nos capacita a transpor barreira por barreira, rumo ao sonho. É quando a FÉ entra em ação! Aquele sentimento que crê, ainda que tudo indique ser impossível. É da junção dessa paixão que nos move a buscar o sonho e da fé que crê e que alimenta a esperança de se chegar ao que se almeja que se constrói a base sólida para se buscar com sucesso. Perseverar! Ter convicção de que se pode chegar lá! Entre querer e fazer uma maratona existe a distância exata contida na palavra determinação. Muitos querem, poucos são os que buscam conseguir. Muitos sonham, poucos são os que acreditam em seus sonhos e vivem para realizá-los. O apenas sonhador debruça-se sob as estrelas e espera uma delas cair do céu em suas mãos. O sonhador-realizador contempla-as e, através da sua luz, segue o caminho que o leva até elas! Este é o maratonista! Somos do tamanho de nossos sonhos! E nossos sonhos, do tamanho de nossos passos. Realizá-los só depende de se dar o primeiro passo...

P.S. Em tempo: foram 19 anos desde o meu acidente até a primeira corrida no lago, após deparar-me com um visitante indesejável. Quatro meses para sair dos 700 m iniciais e conseguir dar a volta completa de 2.200m no lago da minha cidade. Um ano e meio após a primeira corridinha, completei a minha primeira meia maratona e mais um ano depois, completei a minha primeira maratona em Curitiba! Novo sonho? Correr uma maratona oficial em minha cidade... Impossível? Não! Impossível só existe no vocabulário dos descrentes na Fé, dos que já morreram ou dos que perderam a batalha sem nem ela acontecer!

Os sonhos podem ficar adormecidos, mas uma vez despertados, são como caixas desenterradas após um terremoto... Respiram o novo ar, inflam-se! Não retornam aos seus lugares, jamais! Ganham o espaço, cá fora e aqui permanecerão! Para expandirem-se, tomarem forma e nos levar por vôos ainda não experimentados..



domingo, 5 de junho de 2011

Treino é treino

Vamos colocar ordem na casa, afinal estou há quase um mês sem um treino longo no final de semana e a maratona cobra seu preço. Durante a semana, consigo cumprir à risca os treinos, encaixando além da corrida, treinos de natação e de bike. Mas antes de falar da retomada dos treinos longos, vamos abrir um espaço para o Xará Tiozão, que está arrebentando.

Maratona de Poa: assim parece fácil

Fez Poa para 4h7min, Frigurgo (30k) na semana passada para 2h47, ou seja, está com tudo e não está prosa. Está impossível! Guilherme Maio, mandou recado para a gente treinar, que não vai ter moleza. Para a maratona do RJ, sem chances para nós, nem trabalhando em equipe conseguiremos derrotá-lo.

Mas ele treme só de pensar em voltar nas minhas quebradas. Veio aqui só uma vez para nunca mais...a língua virou gravata. Só aqui mesmo para eu detoná-lo. Nas atuais circunstâncias, tenho minhas dúvidas se ainda consigo, mas não canso de lançar convites e tomar declínios e excusas.

Para ele matar saudades, segue a brincadeira do sábado, até a porteira.


A planilha pedia 100 minutos, com 8 x (30s tiro e 2min trote) aos 60 minutos de treino. Ao começar a subir o monte, o flow veio. Não tomei conhecimento e subi como nunca dantes. Cheguei a porteira muito inteiro, nem parecia que estava longe dali há tanto tempo.

Os 8 tiros (depois da escalada) foram tão agradáveis que viraram 16. Nunca fechei um treino tão inteiro e feliz. Xará, estou no jogo. Vou te mandar outro convite para me visitar, aguarde.

Não pude comparecer na prova de Friburgo, mas o Xará representou muito bem a classe. Parabéns amigo! Eu te sacaneio, mas sou seu fã.